90 Anos de Chico Anysio - A REALIDADE DE UM MITO ( Parte 1 )

19/02/2021

Quando Chico Anysio faleceu em Março de 2012, o Jornal O GLOBO resgatou um Texto que foi Escrito por Chico por volta do Final dos Anos 80. Seria utilizado pela TV GLOBO em algum Monólogo ou no Programa de Chico. Acabou Arquivado. Em 30 de Março de 2012, uma Semana após o Falecimento do Mestre, o Jornal O GLOBO Publicou o Texto, até então INÉDITO.

O MENINO trazia toda a Nostalgia de um Chico Anysio Adulto que, apesar de uma Infância sofrida, desejava a todo custo voltar ao tempo de Criança : " Ou Eu encontro de novo esse Menino que um dia Eu fui, ou Eu não sei o que vai ser de Mim. "

Um Texto Comovente ( já postado Completo no Perfil @memorialchicoanysio em 14 de Abril de 2020 ). Mas, na Realidade, para Chico Anysio, as coisas não eram exatamente assim. Chico não gostava de se lembrar dos Tempos de Criança. Evitava o quanto podia recordar sua Infância. Em SOU UM HOMEM DE POUCO RISO, uma entrevista concedida ao Jornalista Narceu de Almeida para a extinta Revista MANCHETE, publicada em 13 de Abril de 1974 ( já Postada neste Blog em 26 de Outubro de 2020 ), logo no início da conversa, Chico respondeu : " Tive uma infância muito Desagradável. Eu sou talvez a única pessoa no mundo, ou uma das poucas, que daria tudo não para voltar, mas para NÃO VOLTAR a infância. Eu Apanhava muito. Um dia fiz uma piada sobre isso : Eu era uma criança muito responsável - responsável por tudo que acontecia em casa. Nunca tive festa de aniversário. Sou do tempo da Palmatória, e por isso nem gosto de falar sobre a minha infância. Acho que essa é a razão por que fui mau aluno, numa espécie de vingança contra o tratamento que eu recebia. E esse talvez seja o motivo porque me excedo com meus filhos, para evitar que aos 42 anos eles tenham reclamações sobre o modo como os tratei. "

Em 1998, ao ser entrevistado pela Jornalista Marília Gabriela em seu programa pelo SBT, DE FRENTE COM GABI, Chico voltou a falar sobre a infância, e se sentiu desconfortável ao falar sobre a Mãe, D. Haydée Viana : " Não gosto de falar sobre isso. Certa vez desabafei na MANCHETE ( a Entrevista Mencionada ), minha Mãe quando leu, chorou muito. Tudo isso já passou, é coisa do passado. "

Apesar de Perdões e de Águas Passadas, Chico Anysio era visivelmente um homem Triste. Tímido e Triste. Sua Alma tinha Cicatrizes. Cicatrizes essas que, há quase um ano, foram Expostas de maneira Sensacionalista e Desnecessária. Muitas pessoas se Chocaram com Declarações Fortes que vieram á tona em uma Entrevista pelo YouTube ( já Retirada do Ar por Determinação Judicial ) cujo Tema era a Partilha dos bens deixados por Chico e as Disputas familiares em torno de sua Herança. Há quem tenha se Chocado pelo Conteúdo do que foi dito. Coisas que Jamais poderão ter sua VERACIDADE Avaliada, por se tratar de três Pessoas já Falecidas ( Chico, seu irmão mais Velho e sua Mãe ). Há quem tenha se Chocado pela Audácia de possíveis Calúnias e Difamações. A pessoa entrevistada ganhou COMOÇÃO de quem acreditou no que foi dito e REPÚDIO de quem não acreditou. Sempre digo a quem toca no assunto comigo que não importa sobre a Veracidade dos Relatos. Realidade " Aumentada " ou Não, é de um lamento profundo alguém se utilizar das Cicatrizes Dolorosas de outrem para chamar atenção para Si e tentar comover as pessoas em Benefício Próprio. Ainda que tivesse permissão para falar. Se nunca usou essa " Permissão " em ocasião alguma pós-morte, Desnecessário ABRIR em um momento particular de Tristeza e Caos.

Chico Anysio sofria violências. Pelo menos as Físicas ( Agressões ) sempre foram de conhecimento quase geral. Apesar disso, sua relação com Mãe e Irmão mais Velho era Maravilhosa ( ou pelo menos se tornou Maravilhosa com o passar dos Anos. )

Elano de Paula, o irmão em questão, já era Profissional do Rádio desde meados dos Anos 40. Chico Anysio, por sua vez, ainda era totalmente anônimo quando surgiu pela primeira vez, aos 14 Anos de idade, em 1945, em uma Reportagem do JORNAL DOS SPORTS ( RJ ), Vencedor de um Campeonato de Futebol de Botão ( Conteúdo já Postado neste Blog em 20 de Dezembro de 2019 ). " Eram quase quatrocentos concorrentes. Isto fez com que o JORNAL DOS SPORTS subdividisse o Rio. Não podia haver quatro Jogadores disputando por Copacabana e cinco pelo Leblon. Eles foram dividindo os bairros em ' trechos' e Eu fiquei como Jogador de Águas Férreas. O Torneio era Eliminatório. Venci os Jogadores de Catumbi, o Jardim do Méier, Irajá, o Bar20, o Saúde, mais alguns que não lembro, e cheguei á Final, contra um rapaz chamado Reboredo, um baiano que defendia o Centro e jogava não com uma Palheta, mas com a Unha. O Dalto me emprestou o Time dele para disputar o Campeonato e, mais do que isso, ficou sempre ao meu lado, como treinador e Sincero Torcedor. Venci o Jogo Final por três a dois e ganhei uma Taça. Teve Filmagem e tudo. Eu era o Campeão Carioca de Futebol de Botões. Mas o que foi filmado foi Exibido e minha Mãe viu.

- Ah, seu Safado. Por isso é que você anda matando aula ? Pra jogar essa besteira de Botão ?

Levei uma Surra, mas das Taças que ganhei na Vida, de todos os Troféus que recebi, o mais importante pra Mim sempre foi essa TAÇA de CAMPEÃO CARIOCA DE BOTÕES. "

A Paixão pelo Futebol era Antiga. " Sempre gostei de Futebol. Fui levado a gostar, porque meu Pai era Presidente do Ceará Sporting e muitas vezes o time se concentrava em Maranguape, no nosso sítio. Várias vezes fui aos treinos do Ceará com meu Pai, e aos jogos também. O Futebol fazia parte do meu dia a dia, " contou em sua Autobiografia de 1992.

Chico nasceu no Sítio mencionado, ás 5: 00 h em Ponto da Manhã, em um 12 de Abril, em 1931. Relembrou tudo em uma Reportagem Especial do Jornalista Pedro Bial para o GLOBO REPÓRTER, em 1984. Visitou a casa onde nasceu e, visivelmente emocionado, relembrou várias histórias que viveu ali. Duplamente ARIANO ( Áries com ascendente em Áries ), não acreditava muito em Horóscopo ou Astrologia, mas trazia consigo todas as características do Signo, e vez por outra falava com Propriedade sobre o Assunto : " Ser Ariano é muito difícil, é muito ruim. Ariano é um Líder Nato e tem personalidade muito forte, sentimentos fortes, guarda as coisas para si, deixa para explodir na última hora, e quando explode, é um Estrago." Sua Sinceridade Nua e Crua, suas Opiniões Firmes e por vezes Audaciosas e os Desabafos e Polêmicas ao longo da Carreira, comprovam essa Tese.

Chico Anysio viveu em Maranguape até 1938. Uma Fatalidade com sua família Mudou completamente os Rumos de sua vida. O Pai perdeu toda sua Condição financeira quando sua Empresa de Ônibus foi destruída por um incêndio. Francisco Anízio de Oliveira Paula ( o Pai ) permaneceu em seu Estado e mandou Mulher e Filhos para o Rio de Janeiro.

O Garoto que saiu de Maranguape com a família, não fazia a menor ideia do seu DESTINO : se tornar um dos MAIORES MITOS DO HUMOR e DA ARTE NACIONAL. Apaixonado por Futebol e aspirante a carreira de Advogado Criminalista, vez por outra sentia um impulso artístico, impulso que o fazia participar dos mais diversos concursos de Rádio. A HORA DO PATO, OS CALOUROS DE ARY BARROSO, PESCANDO ESTRELAS (na Rádio Clube do Brasil) e A HORA DO TRABUCO ( pela Rádio Tupi ) foram alguns dos inúmeros concursos dos quais o Mestre participou ( e saía sempre vencedor ). Porém, o mais marcante de todos aconteceu em 1947. Por sugestão de um colega, Chico, que era ótimo imitador, resolveu se arriscar e se inscreveu em um dos programas de maior sucesso da Rádio Nacional na época : PAPEL-CARBONO.

Em sua Autobiografia, ele relembra essa passagem : " Eram cinco páginas que eu segurava com as mãos e os joelhos tremendo. Somente minha irmã Lilia sabia que eu até já tinha feito a inscrição.. ( .. ) .." Fui sozinho para a Nacional. Fiz o ensaio ás três e meia e fiquei lá mesmo, esperando a hora do programa. Até hoje não sei como consegui entrar no palco e fazer meu número. Se hoje em dia ainda fico gelado e tremo, imagine há quarenta anos, com apenas 16 anos de idade e um passe de bonde no bolso. " Amedrontado e desesperançoso diante das apresentações dos calouros que o antecederam, quase desistiu de se apresentar, mas acabou enfrentando a situação. " As palmas foram maiores que o normal á entrada de um calouro. Imagino isso ter acontecido pela minha magreza, pelos meus pés enormes em relação ao corpo, os olhos muito grandes e uma aparência de treze anos, no máximo. Ou sei lá se tropecei ao entrar. Renato Murce recebeu-me com muita elegância. Parecia um pai da gente, tratava os calouros com a maior dignidade, sem gracinhas ou achincalhes. O contra-regra foi a grande salvação. Ao me ver com o papel na mão, sem que eu pedisse colocou uma estante da orquestra, sobre a qual eu depositei o texto que até então tremia tanto na minha mão que me parecia impossível lê-lo. Respirei fundo, mas não esqueço o ruído dos joelhos batendo, a cada vez que, ainda hoje, entro em cena.. (.. ) ..Foi um grande sucesso. Tanto que nem me lembrei mais do agudo da cantora lírica. No corredor, ao sair do palco, recebi abraços de profissionais da Rádio Nacional e colegas concorrentes.. (.. ) ..Se eu não tivesse vencido naquela noite, teria sofrido uma das maiores desilusões da minha vida, porque houve quem levantasse para me aplaudir ao final do número. O resultado, no fim do programa, comprovou meu atrevido prejulgamento. (.. ) ..Outro estrondo de aplausos e o aviso de que a partir de segunda-feira ao meio-dia podia passar no caixa para receber meus cento e cinquenta mil réis. Nunca na vida eu tinha tido uma bicicleta e isso me dava inveja dos que tinham uma, mesmo de aro 16. Peguei aquela grana enorme, fui á Mesbla, e comprei uma tinindo, novinha, zero quilômetro. "

- Toma. É sua.

.." E dei a bicicleta ao Zelito. " ( Zelito Viana, irmão caçula de Chico, famoso Produtor e Diretor cinematográfico e pai do ator Marcos Palmeira ). Zelito era um dos irmãos com quem Chico tinha maior proximidade. Era Chico quem cuidava dele desde Criança.

Apesar do futebol e de aspirante á profissão de advogado criminalista, continuou participando de vários concursos de calouros ( sendo vencedor em todos ) em emissoras diversas e permaneceu com a ideia fixa pelo meio artístico, o que o fez insistir em ser recebido pelo diretor da Rádio Guanabara, que após seis meses indo procurá-lo diariamente ( de segunda á sexta ) conseguiu finalmente receber sua atenção.

Depois de preparar um programa chamado PARECE, MAS NÃO É, e entregar ao diretor, conseguiu a oportunidade de começar a trabalhar na rádio, sem remuneração ( só passaria a ser remunerado se o programa fizesse sucesso ). " Ter direito a meia hora por semana numa estação de rádio de verdade era um grande negócio, mesmo sendo de graça.. Durante a semana escrevi logo quatro programas para garantir o primeiro mês, e mais do que esse mês eu não fiz. Até hoje, vez por outra, encontro alguém que me diz ter ouvido esse programa escondido ás cinco da tarde das terças-feiras na Rádio Guanabara e fico muito surpreso. Será que alguém ouviu mesmo ? Como pode alguém ter ouvido se fui dispensado por falta de audiência ? Gostava do programa. Era eu sozinho ao microfone, fazendo todas as vozes.. (.. ) ..ainda propus, e cheguei a realizar, um radiobaile entrecortado de conversas ( piadas ), dando a impressão de que era realmente uma festa. Fiz duas vezes ( aos sábados ) e ele, ao final, dispensou-me em definitivo. ..( .. ) ..Nesse dia eu desisti de ser artista."

Chico voltou então suas atenções ( e intenções ) aos estudos de direito. " Era como se eu estivesse dizendo para mim mesmo o que era certo fazer da vida:

- Já que você não soube defender a sua causa, vá defender as causas dos outros. "

Até que um dia aconteceu o episódio do tênis esquecido, onde, no concurso da Guanabara, Chico tirou o sétimo lugar no teste de radioator e o segundo lugar no de locutor, ficando atrás de Silvio Santos, que foi o vencedor.

Kerley Fernandes Salguero, ( fã, admiradora e idealizadora de conteúdo para projetos virtuais ) ( @salgkeke2 ).