Chico Anysio e o Futebol

20/12/2019

A Maior Paixão de Chico Anysio não era o Humor : era o FUTEBOL !! Em Várias declarações ao longo da Carreira, dizia : " Penso que não há nada de que Eu entenda mais do que Futebol. ". Dentre seus vários Ofícios, estava o de Comentarista Esportivo : " A rádio Guanabara contratou Raul Longras, que precisava de alguém para ocupar o lugar do seu colaborador que tinha morrido. Sugeri que ele me experimentasse. Eu conhecia muito do assunto porque foi meu pai quem implantou o profissionalismo no futebol do Ceará. ". Chico trabalhou como Comentarista com Raul Longras, depois com Luiz Penido, na Rádio TUPI e inclusive na própria TV GLOBO, ao lado de Pelé, durante Jogos da Seleção Brasileira. 

Várias Passagens de sua Autobiografia, de 1992,  RETRATAM e RELEMBRAM Histórias de Chico e o Futebol : 

" Sempre gostei de Futebol. Fui levado a gostar, porque meu Pai era Presidente do Ceará Sporting e muitas vezes o time se concentrava em Maranguape, no nosso sítio. Várias vezes fui aos treinos do Ceará com meu Pai, e aos jogos também. O Futebol fazia parte do meu dia a dia. Por isso eu sabia que o ataque do Botafogo era Álvaro, Paschoal, Carvalho Leite, Perácio e Patesko. Meu Pai era botafoguense, como também o Elano ( irmão ), porque o Botafogo tinha as cores do Ceará. Mas Eu era do Contra. Torcia pelo Ferroviário e, no Rio, fiquei Vascaíno. Só para chatear. Um vascaíno inacreditável, porque além da ' botafoguisse ' da família, o primeiro lugar onde morei no Rio foi numa pensão da rua das Laranjeiras, pertinho do campo do Fluminense, de onde fui sócio-dependente, sócio-atleta, joguei futebol, nadei, quebrei três vezes cada braço, fiz amigos que mantenho até hoje.. (.. ). O Fluminense ( O Clube ) é uma das coisas mais Marcantes da minha Vida. De tal modo que é quase absurdo eu torcer contra ele. Vou corrigir : Eu não consigo torcer contra o Fluminense. O Máximo que atinjo é não torcer a favor.  "

" .. Continuava sendo Sócio do Fluminense, jogando minhas peladas e até fazendo parte do segundo time do Rio Branco, numa posição em que o titular era o João Carlos, que jogou no Fluminense, no América e no Botafogo. Como todo menino, Eu pensava em ser jogador de futebol.. (.. ).. Esse Desejo cresceu, muito, quando vi o primeiro treino do Bigode, no Fluminense. Lembro que tirei uma Fotografia com Ele, ao lado de toda a meninada do clube que estava assistindo. Fiquei muito emocionado quando fui á loja do Bigode, anos depois, perto do lago do Machado e, ao contar que assistira ao seu primeiro treino, ele me disse : 

- Eu Sei. Olha a Fotografia Aqui.

" Eu queria ser jogador de Futebol. Embora pudesse desejar ser um Ademir, ou Danilo, ou Zizinho, eu queria ser um Jair. Jair da Rosa Pinto. Era esse que eu ' dizia que era ' quando jogava. Nunca brilhei no futebol, mas nunca fui um dos últimos a ser escolhido no Par ou Ímpar. Dependendo do time, eu era até meio Indispensável. Tanto que a Turma tinha um jogo combinado e eu fui ' Intimado ' a comparecer. Jogo contra, no Campo do Fluminense, que naquele tempo alugava o Campo para jogos assim. A imposição era que os times jogassem descalços, para não estragar a Grama... (.. ) Ás Duas eu estava no poste da esquina, esperando o Pessoal. Não me lembro quem foi, mas um colega chegou e me disse que houvera uma mudança. O Jogo seria no Campo do Aliança.. (.. ) O Campo era de terra e não dava para jogar Descalço.

- Me disseram que o Jogo era no Fluminense. Mas não faz mal. Vá indo com o pessoal, que eu vou em casa pegar o Tênis e vou direto para lá. 

Por isso que eu digo que sou Ator porque esqueci o Tênis. Eu sempre atribuo o esquecimento do Tênis a responsabilidade exclusiva pela minha Entrada no mundo Artístico. " 

" Eu e meu irmão Zelito inventamos um jogo em que recortávamos a fotografia colorida dos Times nas revistas, Jogador por Jogador, e a colávamos em cartolina. Era Jogado sobre um tapete, com bolinha de cortiça que eu fazia cortando e arredondando com uma lâmina de barbear. E havia, meu deus, o jogo de Botões ! Ah, eu só perdia para o Dalto Riodades que, além de jogar maravilhosamente, tinha um Time Imbatível. Eu fazia os botões de coco ( casca ), como todos os meninos daquela época. Lixava primeiro no meio-fio da calçada, depois usava lixa número dois, número um, até chegar a lixa d'água que deixava o Botão lisinho, pronto para receber a palheta. Em qualquer brincadeira com o Zelito, eu sempre deixava que ele ganhasse, mas no Botão, não. O Botão era, para mim, uma responsabilidade. Botão era, naqueles dias, a única coisa que eu levava á Sério. Nos Campeonatos era meu o Segundo Lugar. Sempre. Como Sempre era o Dalto o Primeiro. Cada um de nós ' defendia ' um Time. O Dalto era Botafogo, mas eu não podia defender o Vasco, porque o dono da casa onde havia o Campeonato era vascaíno. Fiquei sendo o Representante do São Cristóvão. "

" Um dia o Dalto mostrou-me o exemplar do JORNAL DOS SPORTS anunciando o Campeonato carioca de Botão. 

- Por que você não se inscreve? - perguntei

-Eu ? - tremeu o Dalto - Você é quem vai defender o Cosme Velho.

Havia alguém no mundo mais Tímido do que Eu : o Dalto !  Mas depois de ter encarado a platéia do Papel-Carbono e já estar inscrito para o programa do Ary Barroso e a Hora do Pato, quem podia me falar de timidez ? 

" Eram quase quatrocentos concorrentes. Isto fez com que o JORNAL DOS SPORTS subdividisse o Rio. Não podia haver quatro Jogadores disputando por Copacabana e cinco pelo Leblon. Eles foram dividindo os bairros em ' trechos' e Eu fiquei como Jogador de Águas Férreas. O Torneio era Eliminatório. Venci os Jogadores de Catumbi, o Jardim do Méier, Irajá, o Bar20, o Saúde, mais alguns que não lembro, e cheguei á Final, contra um rapaz chamado Reboredo, um baiano que defendia o Centro e jogava não com uma Palheta, mas com a Unha. O Dalto me emprestou o Time dele para disputar o Campeonato e, mais do que isso, ficou sempre ao meu lado, como treinador e Sincero Torcedor. Venci o Jogo Final por três a dois e ganhei uma Taça. Teve Filmagem e tudo. Eu era o Campeão Carioca de Futebol de Botões. Mas o que foi filmado foi Exibido e minha Mãe viu. 

- Ah, seu Safado. Por isso é que você anda matando aula ? Pra jogar essa besteira de Botão ? 

Levei uma Surra, mas das Taças que ganhei na Vida, de todos os Troféus que recebi, o mais importante pra Mim sempre foi essa TAÇA de CAMPEÃO CARIOCA DE BOTÕES. "

Chico Anysio, bem antes da Vida Artística e da Fama, em 1945, como Destaque no JORNAL DOS SPORTS ( RJ ), Vencedor de Futebol de Botão

" A Rádio Guanabara contratou o Raul Longras ( o Homem do Gooooolllll Eletrizante ) e passou a ' fazer ' o Futebol. Longras morava na rua Taylor e, até então, trabalhava na Rádio Clube do Brasil. A rua Taylor fica na Lapa, pertinho da Conde Lage.. (.. ) Ou o Longras foi com a minha cara ou deve ter me reconhecido da sua jurisdição, não sei. O Negócio é que ele salvou minha situação, com o dinheirinho a mais que me conseguiu. Eu fiquei sendo o seu ' Locutor atrás do Gol '. Eu era o ' tem razão ', que até hoje existe. 

- ..raspando o poste! Ô Fulano.

- Tem razão, Longras. A Bola passou raspando.

" Minha Voz era boa, minha Cultura aceitável e meu conhecimento de Futebol Surpreendente. Penso que não há nada de que Eu entenda mais do que Futebol. Mesmo Hoje, vez por outra causo Espanto com este meu Conhecimento. Há alguns meses Participei do mais Importante programa de Rádio do Rio Grande do Sul, SALA DE REDAÇÃO, com gente entendida do Assunto, como o Paulo Santana, o Kenny, Lauro Quadros, e outros, e todos ficaram surpresos, porque eu expliquei como seria um jogo PALMEIRAS e INTERNACIONAL na Véspera. Pô, nasci dentro do futebol.

- Você vai trabalhar comigo.

O Longras não estava me convidando, mas praticamente INTIMANDO. Mais do que Ótimo ! Fiquei no segundo Jogo. Não existia MARACANÃ. O Longras transmitia o Jogo Principal e eu ficava no outro Campo dando as Notícias:

- Alô, Longras !

- Fala, Anysio.

- Em General Severiano, primeiro Gol do Botafogo, Otávio.

- Obrigado, Anysio.

" Foi um enorme Prazer esse trabalho. Meu grande Medo era um dia Acontecer um problema com o Som do Longras e Eu ser ' obrigado a irradiar o Jogo ' a que assistia. Seria Impossível. Desde menino me acostumei a ver o Jogo de LONGE. Vou explicar. Há três modos de Ver o Jogo : Junto com a Bola, acompanhando-a - Como os Locutores. Dentro do Jogo, com o Coração em cima da Bola - Como os Torcedores. De Longe, num plano afastado, numa tomada de grande-angular, vendo o Campo Inteiro - Como os Comentaristas. Sempre vi o Jogo num LONGSHOT. Por esta razão, não grito nos Gols. Vejo o Jogo somente como Comentarista, observando muito mais o que deveria ter sido feito e não foi, do que o que foi feito. Senti que estava certo no dia que o Didi, num bate-papo de rua, me disse :

- Eu sou capaz de jogar a vida inteira sem Errar um Passe. Dar o Passe certo não tem a menor importância. Importante é dar o MELHOR PASSE CERTO. 

" Mais do que o dinheiro que o Longras me possibilitou ganhar, ficou na minha lembrança a felicidade de ter visto pessoalmente algumas coisas lindas, como a estreia do Heleno no Vasco, em São Januário, quando o Vasco derrotou o São Cristóvão por Onze a Zero. E na semana seguinte, em Caio Martins, eu estava no campo quando o vasco venceu por Quatorze a Um o Canto do Rio. Vi o Vasco bater de Sete no bangu, no velho Campo da rua Ferrer. Foram meses Inesquecíveis. "

" Eu era Vascaíno, o Longras sabia. Ele torcia pelo América, mas não me incomodava. Aliás, o próprio América nunca foi de incomodar a ninguém. Para tanto, invoco o testemunho de um dos meus Ídolos, Max Nunes, americano como também já fui e autor de uma frase Antológica : 

- O América é o Segundo Time de Todos. Até do Juíz.

" Fiquei quase dois anos morando em São Paulo. Fazia o CHICO ANYSIO SHOW, com Daniel ( Filho ) dirigindo, e o BAR-T-PAPO, um programa de cinco minutos diários, dirigido pelo Gonzaga Blota. Além dos dois Programas, fiquei como Comentarista Esportivo da EXCELSIOR. Trabalhar com Geraldo José de Almeida foi uma honra muito grande. Ele foi um dos maiores Locutores Esportivos de todos os tempos e era dono de um Caráter fora de Série. Aprendi muito com ele. Um dos seus Ensinamentos Eu Uso até Hoje: Comentarista tem que Arriscar ! Falar o que já foi Visto não é bastante. É preciso PREVER ! Hoje ( em 1991 ), quando sou Comentarista Esportivo do Luiz Penido, na Rádio TUPI, cada vez que faço uma PREVISÃO lembro do Geraldo. De modo geral, elas acontecem.. Se errar.. bom, se errar, dou um jeito. O Fato é que não me Limito a contar o que já foi Visto ou Ouvido. "

ANÚNCIO da RÁDIO TUPI, em 1991, onde Chico trabalhou como Comentarista.

Chico Anysio com os Jogadores Ado ( Eduardo Roberto Stinghen ) e Emerson Leão, em 1969. Chico, Apaixonado por Futebol e Especialista no Assunto desde Sempre, naquele ano foi convidado pela extinta Revista MANCHETE para um Bate-Papo/Análise com os Dois jogadores sobre a Copa do Mundo de 70, que estava prestes a Chegar. Na Matéria, Chico Apostava na Vitória da SELEÇÃO. DITO E FEITO !

Relato de Chico Anysio á extinta Revista SÉTIMO CÉU - SÉRIE AMOR, em 1974.

Certa Vez Li uma Frase de Chico, em um Blog, que achei tão INTERESSANTE quanto SURPREENDENTE : " Acho absurdo Torcedores Comemorarem o momento do GOL ". Chico não tinha esse Costume : " Vejo o jogo sempre como comentarista, observando muito mais o que deveria ter sido feito e não o que foi feito. ". Chico era Vascaíno no RJ e Palmeirense em SP.

Kerley Fernandes Salguero, ( fã, admiradora, pesquisadora e idealizadora de conteúdo para projetos virtuais )