Chico Anysio e os Primórdios da TV

14/06/2019

A TELEVISÃO no Brasil surgiu em 1950, sendo a TV TUPI, em São Paulo, a primeira emissora de TV no país, inaugurada posteriormente também pelo Rio de Janeiro. Em 1953 nasce a TV RECORD e em 1955 é inaugurada a TV-RIO, que aliou-se a TV RECORD formando o Grupo EMISSORAS UNIDAS. Em 1957 os Programas passaram a ser exibidos simultaneamente em São Paulo e Rio de Janeiro. Foi nesse período, ainda trabalhando na Rádio Mayrink Veiga, que o Mestre Chico Anysio estreou na Televisão. Em 1957 começou na TV-RIO participando do humorístico AÍ VEM DONA ISAURA, de Haroldo Barbosa e do ESPETÁCULOS TONELUX, dirigido por Maurício Sherman, pela TV TUPI. Escreveu para vários programas em emissoras diferentes e atuou em quadros diversos, mas foi em 1960, com CHICO ANÍSIO SHOW, pela TV-RIO que se CONSAGROU como HUMORISTA e deixou sua MARCA REGISTRADA na HISTÓRIA DA TV BRASILEIRA com a implantação do VÍDEOTEIPE no Brasil, cujo método Revolucionou o jeito de se fazer e gravar Programas.


O Começo na Televisão

" Foi para interpretar um tio nordestino da D. Isaura ( Ema D'Ávila ) que o Haroldo me escalou na TV-RIO. Eu já tinha interpretado um papel num programa de televisão do Carlos Machado chamado Cássio Muniz Follies, mas o tio da D. Isaura foi meu primeiro trabalho efetivo na Tv ", conta Chico em sua Autobiografia de 1992, SOU FRANCISCO. Chico, paralelamente ao Rádio, trabalhava em emissoras de Tv diferentes, já que naquele tempo ainda não existia o contrato exclusivo, o que possibilitou o mestre escrever e atuar em diversos programas. O primeiro deles foi NOITE DE GALA, de Abrahão Medina, onde Chico escrevia vários quadros de Sucesso como MESA OVAL OU RACHA, PROFº LOURENÇO ( Antônio Carlos Pires ) protagonizado juntamente com Sonia Lancellotti e João Loredo, e SEU OBTURADO, com Walter D'Ávila e Renato Consorte. Na parte de Interpretação, Chico criou o famoso personagem Charlie Westminster, " the Third ", recruta do exército, que misturava o inglês e o francês no vocabulário e que tinha um mordomo que executava todas as tarefas por ele.

" A Mayrink já liderava nos horários dos programas ' montados ', como se denominava o programa com elenco e orquestra, mas a TV TUPI continuava comandando o Ibope na televisão. Para mim era quase indiferente este domínio, porque Eu era das Duas. Já trabalhava também no SUPER SHOW, um programa criado pelo Sherman para combater o NOITE DE GALA. Eu concorria comigo, mas não fazia mal. Importante eram as chances que eu tinha nas duas emissoras, o aprendizado, a vitrine onde meu trabalho ia sendo exibido. "

O Rádio, de um modo geral, foi perdendo espaço para a televisão, e com isso passou a abrir mão dos programas "montados ', optando por apenas programação musical, com disc-jóqueis. Foi quando Chico propôs que a TV-RIO se tornasse uma emissora exclusivamente Humorística. " O Diretor Comercial da TV-RIO era um jovem, quase menino, de valor sem tamanho : Walter Clark. O Diretor Artístico, um experiente profissional do rádio que acreditava em primeiro lugar no humor : Péricles do Amaral. Fizemos uma reunião os três e eu sugeri que a TV-RIO fizesse sua programação semelhante á Mayrink Veiga : uma base firme e concreta no humor ".

" Foi uma época deslumbrante para o humor. Tudo deu certo na TV-RIO. NOITES CARIOCAS ( inicialmente dividido em duas partes de uma hora cada ) tinha índices acima de 60 pontos e 80 % dos personagens conseguiam sucesso total. A nata do humor brasileiro fazia parte do elenco da TV-RIO, porque além dos humoristas cariocas ( a maioria ) ainda contávamos com o que havia de melhor em São Paulo, como Maria Tereza, Murilo Amorim Correia, Renato Corte Real e toda a PRAÇA DA ALEGRIA, comandada pelo talento, elegância e simpatia de Manoel de Nóbrega. A PRAÇA cobria as noites das terças-feiras, fazendo explodir este fenômeno que é Ronald Golias e lançava no mundo do riso Moacyr Franco. Completavam a terça-feira outros dois programas : MILHÕES DE NAPOLEÕES, escrito por mim para o elenco da casa - estrelado por Nancy Wanderley - e RIO, TE ADORO, versão carioca do SÃO PAULO, NUM TE GÜENTO, do Aloysio Silva Araújo.. (.. ) ..A competição era praticamente interna. Nós ' brigávamos ' conosco, já que TV TUPI limitava-se aos dois programas escritos por este monstro sagrado do humor que é Max Nunes ( BOATE DO ALI BABÁ e EM CASA DE FAMÍLIA DE TODO O RESPEITO ). "

Na TV-RIO, Chico era responsável, entre outros programas, por ROMEU E JULIETA, humorístico estrelado por sua esposa na época, Nancy Wanderley, e por Zé Trindade. 

" No ROMEU E JULIETA eu lancei, com a direção de Wilton Franco, a ' externa ' nos programas de humor. Eram cenas sem diálogo, filmadas, e não com videoteipe, mas davam uma ' respirada ', saindo do entre quatro paredes. ROMEU E JULIETA era uma comediazinha de 25 minutos. Uma experiência que se fazia. Uma tentativa de sair do esquema ' quadro-quadro-quadro-quadro, uma busca por outro formato, já tentado pelo Max em CASA DE FAMÍLIA DE TODO O RESPEITO. Não funcionou nem em um nem outro. O público queria o ' quadro-quadro-quadro.. "

Nessa época Chico Anysio, que foi idealizador, roteirista e algumas vezes ator nas CHANCHADAS produzidas pela Atlântida, trouxe o Diretor Carlos Manga, até então específico em cinema, para trabalhar no ramo da televisão e ajudá-lo na criação/elaboração de um programa de apoio aos demais humorísticos da TV-RIO. Assim nasceu O RISO É O LIMITE. " Manga aceitou conversar sobre o assunto e foi a TV-RIO. Não dava para resistir aos argumentos do Walter e do Péricles e, naquela mesma tarde, ele assinou contrato com a TV-RIO para dirigir o programa dos sábados, cujo título ficou sendo O RISO É LIMITE, numa brincadeira com o grande sucesso da televisão naquele ano : O CÉU É O LIMITE, feito em São Paulo pelo Aurélio Campos, e no Rio por Jota Silvestre.. (.. ) ..O RISO É O LIMITE tinha como redator principal Aloysio Silva Araújo e fizemos ali uma competição incrível. NOITES CARIOCAS e O RISO É O LIMITE jogavam semanalmente um Fla-Flu, um Grenal, um Cruzeiro e Atlético. Era briga de cachorro grande. Os índices oscilavam acima de 85 pontos. Lembro de uma semana em que um deu 91 pontos, o outro, 93. Sempre com vantagem para O RISO É O LIMITE. Meu NOITES CARIOCAS não venceu nenhuma vez, mas isso não me entristecia. Eu trouxera o Manga para a TV-RIO e participara da criação do RISO. Além do mais, sempre torci, como torço até hoje, pelo sucesso dos programas de humor. O humor é a minha praia. Cada programa que dá certo, está dando certo para mim também, representa mais empregos para toda a classe. Torcer contra um programa de humor é coisa de quem não é inteligente e creio não ser necessário provar a ninguém que burro eu não sou. "

Na TV-RIO houve a fase da saída de Manoel de Nóbrega e todo o elenco da PRAÇA DA ALEGRIA para a TV TUPI e da contratação do comediante Vagareza ( que ficou famoso pelas Chanchadas ), através de uma indicação/sugestão de Chico Anysio. Vagareza ajudou muito suprindo a falta dos comediantes que foram para a TUPI e no Sucesso dos programas da TV-RIO. Mas esse sucesso foi sumindo aos poucos. " Dois anos depois, a ' novidade ' estava acabando. Faltava , mais uma vez, uma locomotiva. Naquele tempo não havia novelas dando pé. As ( poucas ) eram apresentadas em dias alternados ( segundas, quartas e sextas ), como no rádio, e isso não criava o hábito.. (.. ) ..As televisões viviam do humor e do jornalismo e a locomotiva do humor começava a perder força. Foi quando Carlos Manga, passando pelo corredor da TV-RIO, viu uma máquina muito bonita e muito esquisita, diferente de tudo que se costumava ver.. "


A Revolução do Vídeoteipe e o Fenômeno CHICO ANÍSIO SHOW

" Eu sou o único Francisco que só foi Chico quando quis. Todos na minha casa me chamavam de Oliveirinha, porque meu Pai era chamado de Oliveira e eu tenho o mesmo nome dele. Desde que entrei para o colégio me chamavam de Anysio e de Anysio eu também era chamado pelos meus contemporâneos do rádio. Na televisão acontecia o mesmo. O nome artístico ' Francisco Anysio ' existiu até 1960 e todo mundo daquela época me chama ( ou chamava ) de Anysio. Até então ninguém, em nenhum lugar, me chamara de Chico. Quem mudou isso foi Carlos Manga e a responsabilidade se deveu a tal máquina estranha que o Manga viu no Corredor. "

Criada por Jack Mullin e Wayne R. Johnson desde 1950 e projetada por Bing Crosby através da Bing Crosby Enterprises em 1954, o sistema de gravações por fitas magnéticas não conseguiu se tornar algo comercializado. Tempos depois a CBS ( Columbia Broadcasting System, rede americana de televisão ), estava prestes a produzir as máquinas da BCE, quando a Ampex ( empresa ) introduziu um sistema superior denominado Quadruplex. O Quadruplex permitia que algo pudesse ser produzido e gravado para ser exibido depois. Assim nasceu a máquina de VÍDEOTEIPE em 1956, desenvolvida por Charles Ginsberg e Ray Dolby.

O vídeoteipe foi usado pela primeira vez no Brasil em 1958, com a apresentação de "O Duelo", de Guimarães Rosa, pelo programa "TV de Vanguarda", da TV TUPI de São Paulo. O equipamento era utilizado de forma precária pois não havia possibilidade da edição (montagem). Walter George Durst, responsável pelo programa, dispunha de uma fita de apenas uma hora de duração e por isso as cenas tiveram de ser exaustivamente ensaiadas e cronometradas. Quando a fita terminou, ainda faltavam as cenas finais, que foram feitas "ao vivo" após a exibição da parte gravada. Os avanços da tecnologia trouxeram, em 1959, o sistema helicoidal. Nesse sistema as trilhas de vídeo passam a ser mais inclinadas, utilizando melhor o comprimento da fita. Tanto o áudio quanto o vídeo utilizavam as fitas em rolo. O videoteipe passou a ser usado definitivamente com o programa humorístico de Chico Anísio em 1960. ( FONTE : Site TUDO SOBRE TV >> www.tudosobretv.com.br ).

" Manga ficou encantado. A máquina possibilitava a realização de um trabalho semelhante ao do cinema. Ela permitia que tudo fosse previamente gravado e, depois, então poder-se-ia escolher o que colocar no ar, cortando-se os erros, eliminando-se as cenas consideradas dispensáveis, enfim, o trabalho podia ser ' limpo '. A máquina acabava com o erro, evitava o improviso excessivo para conserto de um equívoco, ' enxugava ' as cenas que se alongassem. Era como se o cinema chegasse á televisão, e cinema era o mundo que o Manga dominava, era o seu berço. No mesmo dia ele me procurou :

- Vamos fazer um programa que vai ser a grande revolução da televisão.

Contou-me das possibilidades da máquina e eu vi abrir-se ali a chance de realizar definitivamente o meu sonho. A partir da impossibilidade de ser engraçado como o Oscarito, o Costinha ou o Golias e não conseguir atingir o estágio de um Walter D'Ávila ou Brandão Filho, eu resolvera criar a minha estrada : eu ia ser ' aquele que faz vários '. Já representava o Santelmo, o Urubulino, o Soldado Grã-fino, o Dr, Madeira, o ' Só tem tantã '( com Castro Barbosa ), o Prof. Raymundo. A ideia do Manga era juntar todos os meus personagens num programa só. Uma coisa inédita no mundo. Eu falaria comigo, passaria por mim, etc.. "

O Diretor Péricles do Amaral foi contra :

- Esse programa te liquida em dois meses. Dentro de sessenta dias ninguém mais te aguenta. É o fim da sua carreira. Esse programa é um verdadeiro Suicídio.

" O fato do Péricles ser diretor artístico da TV-RIO tirou a chance da TV bancar a ideia, já que ele era contra a realização do show. Walter Clark, no entanto, aprovou e vibrou com o que o Manga idealizara. "

Foi quando Chico Anysio, em parceria com Carlos Manga e Walter Clark resolveram juntos criar a Zoon, uma empresa produtora independente, através do qual, com o prestígio de Walter no ramo comercial, conseguiram o estúdio e o equipamento de graça. " O elenco concordou em fazer o ' programa piloto ' sem receber um centavo sequer. O Manga e eu compramos na Mesbla a fita para gravar o primeiro programa. "

- E o Título ?

- Vamos fazer como é costume na América. Francisco Anysio Show. Lá é assim. Perry Como Show. Dinah Shore Show. O nome do artista e a palavra Show. 

Chico cuidou da elaboração do primeiro programa, que teve Haroldo Barbosa, Antônio Maria, Roberto Silveira e Sérgio Porto como co-redatores. Chico utilizou personagens já existentes e criou outros. " Fui ao meu arquivo e remexi na gaveta dos personagens que outros atores haviam desprezado. Achei o Coronel Pessoa, um tipo que o Rafael de Carvalho não tinha gostado. Rebatizei com o nome de CORONEL LIMOEIRO. Ventania, um tipo que o Antônio Carlos tinha recusado, ganhou o nome de QÜEM-QÜEM e recebeu uma voz fanhosa e o emprego de garçom.. (.. ) Sérgio Porto criou para mim um personagem que era um cientista português chamado Robespierre d'Almeida e Beira Baixa. "

Chico foi acrescentando personagens e também personagens de núcleo, que renderam um programa gravado em 23 horas ininterruptas. " Esperávamos gravar o programa todo em doze horas. A gravação terminaria ás oito da noite, mas não deu. Acabamos ás sete da manhã do dia seguinte.. (.. ) Pela primeira vez era realizado um programa de humor com cinqüenta figurantes, travelings, grua, três câmeras, muita movimentação, uma verdadeira superprodução.. " (.. ).. Oitenta por cento das cenas de ligação de um personagem com o outro eu fiz sem saber como ficaria. O que o Manga dissesse ou mandasse eu obedecia sem fazer uma pergunta sequer.. Ás sete da manhã eu deixei o prédio da TV-RIO com o CHICO ANÍSIO SHOW número um inteiramente pronto. Aí eu já era Chico, porque o Manga me convenceu :

- Chico Anísio Show é melhor, soa melhor, tem ritmo.

Em 1960, portanto, passei a ser Chico, por sugestão do Manga que, se não foi meu padrinho de verdade, foi meu real criador.. "

CHICO ANÍSIO SHOW estreou com enorme sucesso, exibido simultaneamente pela TV-RIO e pela TV RECORD, em São Paulo. " No país inteiro, apenas duas pessoas falaram mal do programa : D. Magdala da Gama Oliveira ( ela assinava MAG, no jornal ) e Randal Juliano, em São Paulo. O próprio Péricles que previra minha ' morte ' em dois meses, mudou de ideia e passou para o time dos que elogiavam o programa. Era um trabalho altamente profissional. Não existia o editor eletrônico e a emenda das cenas era feita no escuro, com o uso de uma gilete. Marcelo Barbosa fazia genial e escondidamente este serviço. Cortava pelo som e emendava o teipe, colando com uma fita ( tipo Durex ). Era perfeito. Havia um dublê que aparecia no máximo de perfil e muitas vezes nem eu notava onde era eu e onde não era.. (.. ) ..Antes de terminar sua exibição, ele já estava comprado pelo Rum Bacardi ( patrocinador ). "

CHICO ANÍSIO SHOW ganhou três prêmios Roquette Pinto naquele ano, como melhor programa de humor, melhor ator e melhor diretor, passou a ser manchete constante em jornais e revistas da época, elevou a carreira de Chico pós-Rádio, se tornou um LP lançado pela Philips em 1962, que trazia o áudio das encenações dos personagens de maior destaque, além de ter consagrado Chico Anysio como um dos melhores profissionais do humor no país. E entrou para a história da televisão brasileira pelo início do vídeoteipe ( recurso que passou a ser usado posteriormente em novelas, como MULHERES DE AREIA ( 1ª versão ), na TV TUPI, onde Eva Wilma fazia Ruth e Raquel ), pela audiência absoluta e pelo esquema de galeria de personagens que acompanhou Chico durante toda sua Trajetória televisiva. Trajetória esta que será o próximo TEMA deste Blog. 


Anúncio de lançamento do LP CHICO ANÍSIO SHOW, pela gravadora Philips, em 1962, que trazia o áudio das encenações dos personagens de maior destaque, veiculado em jornais e revistas da época.

Kerley Fernandes Salguero, ( fã, admiradora, pesquisadora e idealizadora de conteúdo para projetos virtuais )