Chico Anysio na Revista DESFILE - Setembro de 1991 - PARTE 1

10/07/2020

Chico Anysio foi entrevistado pela Jornalista Guta Schechtman em 1991, para uma Matéria Publicada na Edição Especial de Aniversário da extinta Revista DESFILE, da editora Bloch. Com sua habitual FRANQUEZA, Chico falou sobre Trabalho, Mulheres, Romances, Sexo, Machismo, Feminismo, suas raízes Nordestinas e ainda aproveitou para falar sobre o TALENTO ARTÍSTICO dos Membros de sua Família, pondo fim a uma Polêmica que envolvia seu Nome : o NEPOTISMO !

A PRIMEIRA PARTE da Entrevista, a Seguir..

Para um Homem de 60 Anos, nordestino, feio, desengonçado, e de cabeça chata, Francisco Anysio de Oliveira Paula não tem do que se queixar. E não se queixa, embora seu Charme não faça inveja ao SILVA BONITIM - um dos mais de 200 Tipos criados por Ele em 45 Anos de Carreira : casou quatro vezes - com mulheres bonitas - e, agora, solteiro, namorador, mas Fiel, continua fazendo Sucesso com elas. Numa pesquisa entre as Leitoras de DESFILE, sobre homens que gostariam de ver entrevistados, foi um dos mais Votados. Com cinco filhos, três netos, três programas na televisão, vários livros, discos, músicas e quadros, esse homem de mil Caras e Instrumentos nos mostra o Melhor do seu Melhor Personagem : CHICO ANYSIO.

Entrevistar Chico Anysio exigiu boa dose de paciência. Primeiro, as recomendações de que não poderia haver atraso. Afinal, o homem é muito ocupado ! Depois, apanhar os crachás amarelos, passe livre aos estúdios da Barra da Tijuca. Nossa parte foi cumprida. Chegamos pontualmente. Mas só conseguimos entrar no camarim duas horas depois e apenas para fazer as fotos. Assim mesmo, só dez cliques. A repórter teve que voltar no dia seguinte, para a entrevista, temendo outra longa espera. Na hora marcada, porém, a surpresa. O próprio Chico  a chama da porta do camarim, mas pede para que a conversa não demore demais. Responde as perguntas sem parecer apressado ou aborrecido. A má impressão foi desfeita por seu bom humor e atenção. Na saída, uma olhada para o corredor. Ptolomeu, Aldemar Vigário, Boneco e toda a turma esperam o Professor Raimundo para a aula que vai começar.

DESFILE - Você fazia radionovelas, no início da carreira. Quem começou assim, geralmente seguiu os rumos do Teatro, como ator dramático. Por que a escolha pelo humor ?

CA - É que também fui calouro imitador e alguém na Rádio Guanabara me dedurou, dizendo que eu sabia fazer várias vozes. Até então, era galã de novelas e locutor da madrugada. Então, me transferiram para a linha de Shows e passei a ser comediante.

D - E não dava para continuar fazendo as duas coisas ?

CA - Não, porque os horários de ensaio eram incompatíveis. Como já escrevia programas de humor, acabou sendo uma coisa natural.

D - Você veio para o Rio muito pequeno, não é ?

CA - Com oito anos.

D - Apesar disso, o nordestino permanece em você. Costuma voltar sempre para o seu Ceará, para suas raízes ?

CA -Ah, vou sempre, no mínimo uma vez por ano.

D - Para Maranguape ?

CA - Para Fortaleza, Recife. É a mesma coisa, o Nordeste é tudo igual.

D - Fale um pouco sobre esse seu lado nordestino. O que significa isso para uma pessoa tão bem-sucedida.

CA - O Nordeste é muito forte, o lugar onde o Brasil é mais brasileiro. Lá, não existe influência de nada, com exceção da holandesa, em Pernambuco, mas muito pequena. O Nordestino é o único brasileiro que tem tipo físico definido, que você olha e diz ' aquele cara é nordestino'. Não dá, por exemplo, para distinguir um mineiro de um curitibano. O nordestino chega a ser feio, né ? Cabeça chata, baixinho.. O Nordeste é muito Brasil e eu, muito brasileiro. Meu humor, genuinamente, nacional, não é entendido nem em Portugal. Ser nordestino representa uma vantagem. Aquela região é uma glória. Apesar daquela seca, o Nordeste existe. Fortaleza tem o quarto PIB do Brasil. O Ceará está se desenvolvendo bem, pegou dois governos muito honestos, onde não se roubou nem se deixou roubar. Fortaleza é uma festa, um brinco, é onde menos se fala de crise no país. Num estado com aquele chão seco.. Pernambuco só tem sertão e agreste e também se destaca. Então, ser nordestino é um gol.

D - Isso emociona você, não é ?

CA - Não, me dá é um certo Orgulho.

D - Em uma entrevista, em São Paulo, você dizia que o perigo da AIDS moralizou um pouco sua vida, porque, antes , gostava muito de prostitutas, Você confirma isso ?

CA - ( Lendo o Recorte ) - Confirmo.

D- Como é mesmo essa história ?

CA - Agora, não tem mais como, né ? Mas nunca precisei pagar a puta, sempre as tive na conversa. Um tipo de mulher que nunca me dava trabalho. O Cara não tem nenhuma responsabilidade, não fica obrigado a mandar flores no dia seguinte. Não exigiam nada de mim e eu podia nem reconhecê-las depois. É uma profissão, acho, das mais antigas que existe. Fiz umas 800 entrevistas com elas, para uma matéria para a revista SENHOR, só que não consegui acabar, porque tudo que ouvi me chocou muito. Todas tem filhos, mas nenhuma quer que a filha seja puta, e sim professora, economista.. Sentia pena e, ao mesmo tempo, muito carinho por elas. Sempre respeitei. Hoje, só dá mesmo para conversar, porque, com a AIDS por aí..

D - Esse seu gosto teria algo a ver com suas escolhas afetivas ?

CA - Não ! ( Engasgou ). Mas se me apaixonasse por uma puta, casaria com ela. O passado das mulheres, para mim, não tem a menor importância. O importante é do dia que me conheceram em diante. Aí, sim. No passado, ela não era minha, não tinha nada a ver comigo.

D - Sua vida amorosa começou muito cedo ?

CA - Não, porque na minha época de menino, ficava difícil. Aí entra a história da Puta. Sou do tempo em que a única saída era essa. Não existia a pílula, que liberou a mulher. Então, havia aquelas casas, onde elas ficavam, no 147 da Rua Correia Dutra, na Rua Alice..

D - Você se diz Tímido..

CA - E Eu sou.

D - Mas faz um grande Sucesso com as mulheres. Em apenas três meses, os jornais publicaram namoros seus com três artistas diferentes : em Abril, Aldine Müller; em Maio, Kátia Maranhão; em Junho, Cláudia Raia..

CA - É, mas minha namorada é outra, não é nenhuma dessas três.

D - Não dá para confessar quem é ?

CA - Acho melhor não. Namorei a Aldine, mas não deu certo. Ela é muito deprimida, tem problemas. É difícil, não posso ter problemas, preciso de soluções. Nunca namorei a Cláudia Raia, que é muito minha Amiga, amiga querida. Nem a Kátia Maranhão.

D - Apesar de tímido, você é apontado como um homem que conquista mulheres bonitas.

CA - É porque Eu TOU Solteiro, tá ? Dei uma entrevista no Amaury Jr. , que me perguntou o nome da minha namorada. A Kátia estava lá, porque nós íamos ao teatro, com mais uma amiga. Falei de brincadeira : ' é a Katucha ', o apelido dela. Como o Amaury me viu saindo com ela, publicou. Nessa ocasião, a Kátia até namorava um jornalista da Globo de Belo Horizonte.

D - Essa intromissão da Imprensa na vida particular dos artistas incomoda ?

CA - Não, acho que é o papel dela. A Imprensa está aí para isso mesmo : vasculhar, pesquisar, xeretar. Não me atrapalha em nada. Porque sou Fiel. Se namoro uma pessoa sabe que só namoro Ela. Os disse-me-disse não me importam.

D - Ás vezes, não dá vontade de processar ?

CA - Não, de maneira alguma.

D - Você é um homem com uma grande sensibilidade..

CA -Sim, claro.

Kerley Fernandes Salguero, ( fã, admiradora, pesquisadora e idealizadora de conteúdo para projetos virtuais )