VOCÊ CONHECE CHICO ANYSIO ? - ENCICLOPÉDIA VIRTUAL - CAPÍTULO 4

11/11/2021

04. Shows

Em meio á sua chegada á TV GLOBO, o grande FRISSON na Carreira de Chico Anysio era o Espetáculo CHICO ANÍSIO SÓ.. Com temporadas no TBC em 1968, foi o Show que Inaugurou o TEATRO DA LAGOA, no Rio de Janeiro, em 1969. " A noite da estreia foi uma loucura. A passarela entre as poltronas foi colocada ás nove da noite. Parecia filme do Jacques Tati : tudo sendo feito em cima da hora. Ás nove e meia do dia seis de Janeiro de 1969, eu entrei no Palco e tudo correu ainda melhor do que em São Paulo. Eu tinha 38 anos, era grande novidade para o Rio, onde só havia atuado naqueles dois shows com a Rose ( Seus primeiros Shows em 1963, acompanhado da sua então Esposa na época, Rose Rondelli ): no FLUMINENSE e no CLUBE NAVAL. A plateia parecia estar tendo uma surpresa, já que só me conhecia, até então, atrás das caracterizações dos personagens. Eu fazia oito sessões por semana, de terça a domingo, sendo que aos sábados e domingos fazia dois espetáculos. A média do público presente foi superior ao número de poltronas. O Ricardo ( Amaral, Empresário ) chegou a inaugurar uma placa que está lá até hoje " ( Relatos em sua Autobiografia de 1992 ). Em 8 de Janeiro do ano seguinte, já Consolidado, o show Estreou com igual Sucesso no TEATRO GINÁSTICO, também no Rio.

Chico Anysio no JORNAL DO BRASIL, em 1969.

Em quase toda sua Carreira, Chico Anysio se dividiu entre as gravações de seus Programas na TV e as viagens pelo País com seus Shows, algo cansativo, mas um esquema do qual ele não abria mão, apesar de reconhecer as diferenças entre um trabalho e outro : " Na Televisão trabalho com uma equipe enorme, tenho o recurso da maquiagem, e o programa é gravado no período de até quinze horas, dependendo das dificuldades de cada dia. No Teatro, trabalho sozinho, apesar de contar com um conjunto e um trio vocal, sem poder utilizar o recurso da maquiagem, somente Voz e Gestos. A Televisão dá uma facilidade maior na composição do Tipo, mas o teatro dá uma liberdade maior ao que o Tipo Diz. Essa é a grande diferença " , contou em reportagem publicada em 1974 á revista AMIGA.


Em 1969, o Sucesso estrondoso de CHICO ANÍSIO SÓ.. já havia atingido 220 apresentações e sido Visto por 80 Mil espectadores. O Espetáculo acabou se Eternizando, apesar dos tantos outros Espetáculos que vieram Posteriormente, com Igual Sucesso. " O Ricardo ( Amaral ) chegou a inaugurar uma PLACA que está Lá ( TEATRO DA LAGOA ) até hoje ( 1992 ).. " ( .. ) .. " Tenho uma FITA deste show e não gosto de ouvir. Eu era tão pior do que sou Hoje que chego a achar estranho que ' aquilo ' tenha agradado. Eu ainda não dominava o tempo, o ritmo, o tom de cada fala. Não sabia aproximar ou afastar o microfone na dependência do que falava ou de ' quem ' falava. Meu olhar corria pela plateia, o que dificultava a compreensão do público. Chamo isso de geografia do show. Cada pessoa ' está num lugar '. O olhar deve mostrar a plateia onde cada um está. Isto facilita o entendimento e em 69 eu ainda não sabia disso. Mas, como o público também não sabia, gostou. Gostou muito. Sei de pessoas que viram o espetáculo dez, quinze vezes. Até hoje me falam da estória do AVIÃO DE MARANGUAPE, do Negão do ' LEPT-LEPT ', do FOGUETE BRASILEIRO..", relembrou Chico em sua Autobiografia.

A Inauguração do TEATRO DA LAGOA ( em 8 de Janeiro de 1969 ) foi Notícia em vários Veículos de Comunicação. O Jornal O GLOBO destacou : " Ricardo ( Amaral ) pretende fazer da LAGOA o Maior Centro de Diversões do Rio. Aproveitando o cenário romântico, construiu no mesmo Local uma Boate, o DRUNGSTORE e um Boliche. O Boliche caiu de moda, e foi substituído por uma Boate, a SUCATA e pelo TEATRO ". Chico Anysio tinha certeza de que não teria a Desaprovação de ninguém. Por isso, não se importou com a pouca Promoção que foi feita para ele. Disse que : " se estivesse estreando, provavelmente não faria o Show nestas circunstâncias, mas agora, mesmo sem Promoção, as pessoas que assistirem ao Show contarão a outras, e a Plateia estará Garantida. " Declarou que acima de tudo, existe uma completa Informalidade. Depois explicou que no Humorismo é muito difícil fazer com que a plateia não apenas Ouça, mas Participe. " A Motivação do Show, naturalmente, é o RISO, mas Chico diz que a Risada é apenas uma consequência e não um fim em si. O Humorismo é importante porque faz os Espectadores Pensarem. Assim, a Satisfação de Chico ao ouvir Rir, é porque sabe que entenderam o que Ele quis dizer", finalizou a Reportagem.

Chico Anysio no Jornal O GLOBO, em Fevereiro de 1970.

GOSTEI MAIS DO OUTRO, lançado em 12 de Janeiro de 1970, acabou repetindo a Repercussão do Espetáculo anterior. Havia uma ESTRATÉGIA INTELIGENTE de Chico por trás da Escolha do TÍTULO : " O Nome foi escolhido com muita atenção, porque este é o Comentário mais frequente nas saídas dos teatros. E Sempre que alguém Comentar desse jeito estará fazendo uma Propaganda do Meu Show. Um Castigozinho, bem arquitetado, para os Insatisfeitos. Senão um Castigo, pelo menos uma forma de extrair alguma coisa positiva da Insatisfação de Cada Um. Mas, sinceramente, espero que saiam dizendo : ' Gostei mais Deste ! ' Portanto, GOSTEI MAIS DO OUTRO foi Pensado Propositalmente por Chico Anysio, como forma de tirar a Oportunidade do Público ( e dos Críticos ! ) de falarem negativamente de seu Novo Espetáculo ou Compararem com o Anterior, cujo Sucesso havia sido Meteórico.

Foi o Espetáculo que deu Origem ao Histórico LP CHICO ANÍSIO AO VIVO, de 1975, Relançado naquele mesmo Ano pela SOM LIVRE, com outra CAPA. Antes, Chico já havia lançado seu primeiro LP referente a SHOWS, CHICO ANÍSIO - FANTÁSTICO, de 1973, lançado pela CONTINENTAL, com Textos de Chico e Arnaud Rodrigues. Posteriormente vieram os Sucessos UMA NOITE COM CHICO ANÍSIO e NO QUARTO COM CHICO.

O PALCO foi o " HABITAT " mais Marcante da Trajetória Artística do Mestre. A Popularidade e O Sucesso de Chico Anysio na televisão, através do CHICO ANÍSIO SHOW, foi o que ocasionou a ida de Chico para os Palcos. Estreando em 1963 no FLUMINENSE e depois no CLUBE NAVAL, Chico Consolidou o chamado STAND-UP e tornou seu SHOW um verdadeiro FÊNOMENO. Em 1969, o Sucesso estrondoso de CHICO ANÍSIO SÓ.. Como já dito, já havia atingido 220 apresentações e sido Visto por 80 Mil espectadores. Igualmente, GOSTEI MAIS DO OUTRO, UMA NOITE COM CHICO ANÍSIO, NO QUARTO COM CHICO, AÍ-5 e CHICO TOTAL ( lançado em 1978 e que chegou a ter Registro gravado em LP, pela WEA, em 1980 ) sempre foram Sucesso em suas Apresentações pelo Brasil. E os vários outros que vieram se tornaram uma TRADIÇÃO ( tanto no que diz respeito ao Ofício de Chico Anysio, que jamais parou de viajar pelo país apesar de suas inúmeras atividades e os Programas na TV, como no que se refere ao Público Fiel, que nunca deixou de Prestigiá-lo nas plateias do Brasil a fora. ). " Quando alguém que está com problemas vai me ver no Teatro e sai rindo, eu fico satisfeito, sinto-me até como uma espécie de Médico. Outro dia, em Porto Alegre, uma senhora quase deu á luz no teatro durante meu espetáculo. Ela riu tanto que a bolsa d'água se rompeu, o negócio quase atrapalhou o Show. Mas aquela mulher estava Feliz, e essa felicidade o Som que a nova geração ouve não dá. Acho meu trabalho Reconfortante, porque a única coisa que procuro é o bem-estar das pessoas, é fazer com que o público ria ", declarou no mesmo ano á extinta Revista MANCHETE ao jornalista Narceu de Almeida, na Mesma Entrevista já Mencionada.


" O Show de Chico é o que pode se chamar de CLÁSSICO. Piadas de Português, Imitações de várias nacionalidades, graças do casal em lua-de-mel, até a sogra velha de guerra. Lugares comuns das situações e dos caracteres do cômico ", escreveu Carlos Lacerda em sua Reportagem Especial sobre Chico Anysio, publicada em 1970 pela extinta Revista MANCHETE. Eis que Chico explicou na ocasião : " Há quem Censure dizendo que o meu show deveria ser melhor. Mas Eu tenho um Argumento a meu favor : se for outro Gênero de Cômico, não sei se o público vai me aceitar como aceita. Ora, eu sou um Profissional. Tenho que fazer não o que alguns gostem, mas o que o dentista e o alfaiate de alguns gostem. Inclusive porque alguns não pagam Ingresso e eu tenho de fazer o que está ao alcance de todos num dado momento. Tenho de fazer Concessões. Sei que tenho de conceder com Dignidade, mas não conceder a doze pessoas seletas, que vão achar sensacional.. "


AMOR AO TEATRO, de Sábato Magaldi, lançado em 2015 pela Edições Sesc São Paulo. O Livro, de Autoria de Magaldi, foi editado por sua Esposa Edla van Steen e por José Eduardo Vendramini, e traz uma Compilação de Peças Teatrais e Espetáculos das décadas de 1950 a 2000, organizadas Cronologicamente, além das Análises de Cada uma delas, retratando a História do Teatro Brasileiro sob a Ótica de um dos mais Importantes Críticos da Arte Nacional. Chico Anysio faz parte dessa História com CHICO ANYSIO.. SÓ, o primeiro Show Efetivo de sua Carreira e um dos mais Marcantes de toda sua Trajetória nos Palcos, que Revolucionou o jeito de se fazer Humor AO VIVO e Consolidou o Estilo STAND -UP.


Chico Anysio em 1969, durante Apresentação de um Show Acompanhado do violonista Manoel da Conceição, conhecido/apelidado como Mão de Vaca.


CHICO ANÍSIO SÓ.. Revolucionou o jeito de se fazer HUMOR em PALCO, Consolidou a Carreira de Chico no Teatro e, além das Reportagens já Citadas, rendeu outras tantas, sempre com Análises Valiosas. A Extinta Revista MANCHETE deu exclusividade ao Sucesso do Espetáculo em CHICO ANÍSIO NÃO ESTÁ SÓ, em 1969. O Destaque ficou por conta de um dos Monólogos mais Famosos do Show : Chico Anysio contando sobre seu NASCIMENTO ! Na Matéria, o Professor Chaim Katz, na época um dos Membros da Escola de Comunicação do Rio de Janeiro, declarou : " O Fato de Chico gostar de se Ridicularizar representa uma procura de Maior Identificação com o Público. Ele parte para cima de Si Mesmo com uma espécie de MASOQUISMO que o Público recebe com SADISMO. É Isso o que faz Rir. "


Chico Anysio mantinha, no TEATRO DA LAGOA, o mesmo Sucesso que obtinha na época do Programa O RISO É LIMITE, que registrava Audiência de 60 %. A Reportagem apontou que a QUEDA de Porcentagem nada significava, porque os Números Absolutos eram praticamente os mesmos : em 6 Anos apenas 16 ou 17 Mil Espectadores cansaram de Ver Chico Anysio pela TV, ou de Ver Televisão. O Professor Katz prosseguiu explicando : " Em Síntese, o que mudou foi a Televisão, não Chico Anísio. Ele continuou sendo o Preferido das Camadas Média e Alta da População, cujos Padrões de Humor são muito Diferentes. As Classes Abastadas, naturalmente, tem possibilidades de maior desenvolvimento Intelectual.. "

A Reportagem ainda Apontou que entre Chico Anysio e a Televisão daquele período, havia uma Distância Crescente. " O Tipo de Humor que Ele faz não é dos melhores para quem tem que se apresentar todas as Semanas. Enquanto Animadores como Chacrinha e Silvio Santos utilizam como Atração o próprio Público - os Calouros, os Candidatos e Competidores nas mais estranhas Disputas - Chico é Apenas ELE SÓ - o único Responsável pelas Inovações, criador de Centenas e Milhares de Piadas ditas em cada Programa, uma após a outra. No Teatro é Diferente : UM SÓ SCRIPT, bem Caprichado, tem servido aos 200 Espetáculos e arrancado Aplausos de 80 Mil Pessoas. Nesse ritmo, Ele terá ainda 15 Meses para Esgotar o Público Potencial dos 160 Mil que o escolhiam na Televisão, em 1961. E já está Ensaiando um Novo Show, com Novo SCRIPT, com o Título que dá a Medida do seu Humor Fino : GOSTEI MAIS DO OUTRO. "

GOSTEI MAIS DO OUTRO, como já dito, foi Pensado Propositalmente por Chico Anysio, como forma de tirar a Oportunidade do Público ( e dos Críticos ! ) de falarem negativamente de seu Novo Espetáculo ou Compararem com o Anterior. ' "Estreou no TEATRO DA LAGOA em 12 de Janeiro de 1970.


Durante os bastidores de seu Show, em 1971, declarou ao JORNAL DA TARDE não ser uma pessoa engraçada no seu Cotidiano.

Posteriormente vieram os Sucessos UMA NOITE COM CHICO ANÍSIO e NO QUARTO COM CHICO.

Todas as CHARGES e Chamadas de Espetáculo de Chico eram desenhadas pelo Cartunista Ziraldo.

Chico Anysio e os Integrantes do Grupo TEMPO 7, que o Acompanhava em suas Apresentações pelo País.

AÍ-5, de 1977, o Quinto espetáculo da Carreira de Chico teve o Título Inspirado no ATO INSTITUCIONAL, e, na época, chegou a sofrer algumas Críticas. A Principal delas feita pela Revista VEJA através do Jornalista Antônio Chrysóstomo: " Depois de alguns anos de Televisão, qualquer Cômico ganha extraordinariamente em Popularidade e Bilheteria. Porém perde- pelo menos parcialmente - a Capacidade de crítica á Realidade, Atribuição maior do Humor através dos tempos. AÍ..QUINTO, de Chico Anísio, é mais uma prova em Impecável Nível de Acabamento, dessa Evidência de nossos dias. Outro Ponto também é claro : não cabe aos Humoristas a Principal ou Total responsabilidade da Redução de importância da sua própria atividade, mas Sim ás Imposições de uma Estrutura a que suas possibilidades de Expressão ficam expostas e que incluem, fatalmente, a obrigatoriedade da ( também Auto ) Censura.. (.. ).. De Fato, Chico ainda é capaz de falar da Vida, porém de forma tão Reduzida, que dela quase só resta, no Palco, seu Imenso, e Nunca Negado, Talento de Intérprete. "


Voltando ao ínicio de Tudo : A Atriz Rose Rondelli, que trabalhava com Chico em NOITES CARIOCAS e CHICO ANÍSIO SHOW, e que se tornou sua Esposa em 1962 ( Seu segundo Casamento, após a separação de Nancy Wanderley ), foi a grande incentivadora do então marido: " Ela me deu uma força muito grande para que eu fizesse esse show. Como sou muito tímido, ela se prontificou a entrar comigo no palco nos primeiros shows, para me dar um Apoio. Nos dois primeiros ela cantou três números no meio ( tempo que eu precisava para respirar e equilibrar a tremedeira ). Estreei no FLUMINENSE e o segundo show fiz no CLUBE NAVAL. Daí em diante a Rose não precisou mais ir. Fazíamos o show o Manoel da Conceição ( Mão de Vaca ) me acompanhando no violão e eu, contando as minhas estórias ", relembrou em sua Autobiografia.

Mas, é importante ressaltar ( e lembrar ) que, muito antes desse Ingresso nos Palcos, Chico já arriscava algumas Apresentações pequenas, como suas Apresentações em 1962 no AU BON GOURMET. Contratado por Flávio Ramos para animar as noites do Restaurante, no Rio de Janeiro, imitava Tipos e fazia Paródias com Celebridades. Em 1963, ao mesmo tempo em que Chico iniciava sua Carreira NOS PALCOS, iniciou-se também a ENTRADA e SAÍDA do Mestre nas emissoras de Televisão ( Capítulo Anterior ).


Apesar do Humorista José Vasconcellos ( 1926 - 2011 ) ter sido O PAI do STAND-UP no Brasil, foi o Mestre Chico Anysio quem Consolidou esse Estilo de fazer Comédia ( a Cara Limpa, os Textos/Piadas e o Microfone, geralmente em Pé - daí a origem do termo ). Da primeira década de 2000 em diante houve o surgimento de diversos comediantes que se tornaram famosos devido a esse gênero de fazer humor, trazendo tanto a popularização do gênero quanto Deles mesmos, mas Chico, durante anos, foi o PIONEIRO desse Estilo. Ao Longo da Carreira, foram mais de 10.000 Apresentações no Brasil e no Exterior. Seus Espetáculos mais famosos e lembrados são CHICO ANÍSIO.. SÓ, nos anos 60, CHICO TOTAL, CHICO SET, O FOFO ( já nos anos 2000 ), EU CONTO, VOCÊS CANTAM, que misturava humor e música, além da inesquecível apresentação em 1981 no Carnegie Hall, em NY, e dos Shows TAL PAI, TAL FILHO, com o filho André Lucas, e CHICO.TOM, ao lado do humorista Tom Cavalcante, estes dois, os últimos de sua Carreira. Ainda no Currículo de Chico estão os Shows GOSTEI MAIS DO OUTRO, UMA NOITE COM CHICO ANÍSIO, NO QUARTO COM CHICO, AÍ..QUINTO, OITAVO NA PENEIRA, NÓ NO SHOW, OU DÁ OU DÉCIMO, DIÁLOGOS, DIÁLOGOS II, O DIREITO DE RIR E RIR, OLHA EU AQUI OUTRA VEZ, RINDO Á TOA e CHICO ANYSIO, O FANTÁSTICO. Chico Anysio ainda teve alguns outros Espetáculos Paralelos, como UM HOMEM NA PRAÇA, no final dos Anos 80.

" A televisão é uma vitrine indispensável a quem quer fazer esse tipo de trabalho, e eu tinha essa vitrine. Os shows foram sempre de muito sucesso. Fiz shows por esse Brasil inteiro. Atuei em centenas de clubes, cinemas, teatros, circos, campos de futebol e ginásios. Só no CLUBE ATLÉTICO SANTISTA me apresentei mais de oito vezes. Cabral Júnior era meu empresário e houve dia de fazer quatro shows no mesmo dia.. (.. ) quando eu chegava nos clubes, o diretor social me indicava o camarim.

- Que camarim ? - Eu perguntava.

- Pra você mudar a roupa dos personagens.

- Mas eu não mudo de roupa, nem faço caracterizações.

Era um desapontamento inescondível. Ninguém entendia. Mas, no final, ninguém se decepcionava. O show agradava muito e, de modo geral, ali mesmo já se combinava uma volta ao clube para novo trabalho. "


CHICO TOTAL foi outro MARCO da Carreira de Chico Anysio nos Palcos, dando Origem ao LP Homônimo, lançado em LP em 1980 pela WEA.

O nome do show OITAVO NA PENEIRA foi inspirado em um baião de Luiz Gonzaga. Posteriormente vieram NÓ NO SHOW, OU DÁ OU DÉCIMO, DIÁLOGOS e DIÁLOGOS II.

O DIREITO DE RIR E RIR marcou a Despedida do Mestre nos Palcos e do Brasil, quando resolveu se mudar com a família para NY. OLHA EU AQUI OUTRA VEZ marcou seu retorno ao Brasil em 1998 e a estreia do Show marcou a REINAUGURAÇÃO do TEATRO DA LAGOA.

No início dos anos 2000 entra em Cartaz com O FOFO, Show que tinha por objetivo abordar os problemas típicos dos brasileiros de maneira CRÍTICA, levando á plateia aos RISOS, mas também á REFLEXÃO. O FOFO foi Escrito e Dirigido por Ele Mesmo.

Entre 2003 e 2004 apresentou CHICO ANYSIO, O FANTÁSTICO, produzido e dirigido por seu filho André Lucas. André também foi responsável pela produção dos espetáculos EU CONTO, VOCÊS CANTAM ( em cartaz de 2005 a 2011 ) e CHICO.TOM ( de 2005 a 2010 ). Ao lado do Pai, Protagonizou o show TAL PAI, TAL FILHO, entre 2009 e 2010.


Agora falando em Espetáculo Teatral : Apesar dos INÚMEROS Shows e Espetáculos de Chico Anysio em diversos Clubes, Casas de Shows e Teatros, o TEATRO, propriamente Dito, poucas vezes fez parte da Carreira do Mestre, a não ser pela Funções de AUTOR, PRODUTOR ou DIRETOR.

No que se refere a ENCENAR Peças Teatrais, Chico se Aventurou apenas duas Vezes ( as Duas sem Sucesso ! ).

O BELO E AS FERAS, de 1967, foi o primeiro Espetáculo Teatral Efetivo do MESTRE. Com Direção de Walter Avancini, apesar de Criativo, Bem Montado e do Perfeccionismo exigido durante as Apresentações, acabou não Bem-Sucedido.

" Eu e Seis mulheres. O Walter Avancini dirigiu. Ficou muito bom, o Avancini é um diretor excepcional. Tudo o que ele faz, faz bem-feito. Exigente demais, mas o resultado é altamente compensador. Eu saí com o espetáculo para uma excursão pelo nordeste. Lotamos todas as casas, mas não havia noite sem uma briga no elenco, sem uma reclamação, sem uma aporrinhação. Na volta ao Rio mudei o elenco inteiro para o Sul, mantendo apenas a Zélia Hoffmann, que fazia o papel de Maria Tereza e era insubstituível, além de ser a única a não dar o menor trabalho. Avancini reensaiou o novo elenco e parti para o Sul. Parecia que nada tinha mudado. As mesmas reclamações, querelas, bate-bocas.

- Por que fulana tem mais falas que eu ?

- Não sei. Aconteceu.

- Eu tenho que ter mais falas que ela, porque sou melhor.

- Não estamos aqui medindo quem é melhor ou pior.

- Mas eu sou melhor, tenho que falar mais .

- Vou providenciar.

E arranjava uma fala a mais para a que havia reclamado.

- Por que fulana está falando mais ?

- Não sei. Achei bom acrescentar aquela fala.

- Mas assim ela está falando mais do que eu !

Era um pé. Ninguém queria entrar em cena primeiro, todas queriam ser apresentadas por último, ninguém queria dividir camarim com ninguém. Em Porto Alegre, no TEATRO LEOPOLDINA, o pote encheu :

- Obrigado, foi ótimo ter trabalhado com vocês, muito agradecido, vocês são lindas, eu fico gratíssimo, tudo bem, mas Adeus ! O espetáculo acabou hoje. Aqui estão as passagens de volta. O avião sai amanhã ás sete e meia.

" Mandei mudar o letreiro, fiz um comercial para a televisão e, na noite seguinte, já estava fazendo novamente o meu show sozinho, onde ninguém reclamava se eu falava mais ou menos ou se entrava naquela hora ou se a luz apagava depois da minha fala. "

CHICO SET foi um dos espetáculos mais Complicados de sua carreira : " Eu queria fazer com o Daniel ( Filho ), um show representado. Mário Monteiro fez o cenário, que era um Set de televisão. Um enorme baú aberto, com roupas, que eu trocaria, refletores, uma escada, um cenário bonito, onde havia uma poltrona, um espelho de sala de maquiagem, tudo imitando um set de televisão. O Daniel fez uma direção maravilhosa, mas não pôde me acompanhar na estreia na Bahia. Estreei numa quarta-feira no TEATRO CASTRO ALVES, com casa lotada. O espetáculo não rendeu o esperado.. (.. ) Telefonei para o Daniel depois do show, como havíamos combinado.. (.. ) .. " Contei o quanto tinham rido, o quanto tinham gostado, o que funcionara melhor ou pior e que no todo a coisa não tinha ido bem. Daniel e eu falamos mais de quarenta minutos. Ele tinha o show todo na cabeça e fez várias sugestões : - Muda isso, tira aquilo, chega o praticável mais para frente, muda esta luz, modifica aquela.. (.. ) .. Anotei todas as suas recomendações, fui para a máquina de escrever e trabalhei até sete da manhã nas modificações sugeridas. Fizemos um ensaio com as mudanças á tarde e na quinta-feira á noite, com a casa lotada, apresentei novamente o espetáculo. Depois liguei mais uma vez para o Daniel :

- E aí, Tudo bem ?

- Tudo mal. Não funcionou.

- Mas tem que funcionar. É engraçado, pô !

Após a primeira e a segunda apresentações fracassadas vieram outras duas, ambas também sem sucesso, sempre com modificações sugeridas por Daniel e Roteiro REESCRITO por Chico. " Estava exausto. No meio do ensaio me deu uma vontade enorme de parar tudo, de acabar com aquilo, de voltar para casa e nunca mais pisar num palco. Fiquei quinze minutos conversando comigo, ao mesmo tempo em que a vontade real era sair de perto de mim. A casa estava toda vendida para a noite. Sentado numa poltrona do teatro vazio, eu olhava o palco onde estava montado aquele cenário lindo de um show que não funcionava. Foi crescendo em mim uma coisa que até hoje não consigo definir. Não era raiva, não era medo, não era preguiça, não era cansaço. Talvez fosse uma combinação dessas quatro coisas. Aí, levantei, fui ao palco e dei uma ordem :

- Tira Tudo. Arranca esse cenário, some com ele, deixa só a rotunda e traz o meu banquinho. Em vez de representar, vou CONTAR o show pra eles." Enquanto faziam a remoção do cenário e reafinavam a luz, disse o show mentalmente, mudando o que era REPRESENTADO para NARRADO. Dava para adaptar tudo. Á noite, a casa cheia, CONTEI o show. O Sucesso foi absoluto. Tudo rendeu o esperado, riram de tudo, aplaudiram tudo. Liguei para o Daniel : - Não precisa vir." Contei o que tinha feito. Daniel não parava de rir enquanto eu contava o que fizera.. (.. ) .." Quando contei ao Boni o caso, ele me falou : - Se você tivesse falado comigo, eu não teria deixado você fazer isso. A gente quando vai ver você no teatro, vai esperando isso : você, no banquinho, contando as histórias." " Mas o show ( nesse novo esquema que deu certo ) não estava dirigido. Fiz Salvador, Recife, e Fortaleza e voltei para o Rio para me apresentar no GOLDEN ROOM. Convidei o Jô ( Soares ) para dirigir. Inicialmente o Jô aceitou. Depois me ligou dizendo que não podia, por estar com um problema de saúde. Teimei e Insisti. O grilo do Jô foi superado e ele me dirigiu com o maior empenho e brilho. E a ele fico devendo, para o resto da vida, uma providência :

- Dispense o conjunto e vamos fazer o show com fita.

- Fica frio, Jô. O conjunto me ajuda.

- O conjunto é desnecessário, além de ser uma despesa enorme. Pode pôr a fita que ninguém vai reclamar. Eu garanto.

" Gravei a parte musical toda e, até hoje, ninguém reclamou. Isso, nunca pagarei ao Jô Soares. Ás vezes fico imaginando quanto dinheiro gastei á toa, com um conjunto que chegou a ser formado por sete músicos. Em NO QUARTO COM CHICO, além dos sete músicos, eu tinha um trio vocal. Hoje ( 1992 ), a fita me dá uma Orquestra. Não apenas ME DÁ. A fita dá uma orquestra AO PÚBLICO. O nome desta ORQUESTRA é Nico Rezende " ( famoso cantor e arranjador nos anos 80, produtor musical de LP'S de diversos nomes importantes da MPB e intérprete de um dos maiores HITS das paradas daquela década, o sucesso ESQUECE E VEM ).


A histórica apresentação em NY no Carnegie Hall, transmitida pela GLOBO em seu Programa CHICO TOTAL, de 1981, foi um MARCO INESQUECÍVEL da Carreira de Chico :

"Meu filho Lug estudava em Nova York, na Long Island University, e isso me fazia ir muito aos Estados Unidos. Em 81, por exemplo, fui quatro vezes à América para visitá-lo. Numa dessas visitas um amigo meu, Shia, que hoje mora em Miami, acenou-me com a possibilidade de fazer um show para brasileiros no Carnegie Hall.

- Será que isso dá certo, Shia?

- São mais de duzentos mil brasileiros que moram entre Nova York e Nova Jersey. Vamos lotar a casa.

Achei tentador e concordei. Ele começou a trabalhar. Conseguiu uma vaga na pauta do Carnegie Hall para Setembro. Conversei com o Boni e ele sugeriu que o CHICO TOTAL de Setembro fosse a apresentação do Carnegie Hall. Concordei. Eu economizava uma ideia e ganhava mais dias para ficar por lá, pela desnecessidade daqueles sete dias de gravação aqui. "

" Como o show seria gravado para ir ao ar no Brasil, tive que fazer dois em vez de um. Naquele ano (81) o palavrão já estava liberado no teatro. A censura fechara tanto a parte política que, para compensar, abriu o direito ao palavrão. Já havia muitos no meu show. Não poderia ser exibido pela TV. "


Chico tinha suas próprias opiniões sobre o PALAVRÃO em shows : " Não sou dos que acham o palavrão INDISPENSÁVEL. Não. Mas faço parte dos que acham o palavrão uma coisa ACEITÁVEL, dependendo da hora e do modo como é dito. Se a cena é num confessionário, pode ter um palavrão. Se é sobre Suruba, Não Pode. O palavrão só cabe nas cenas PURAS. Se o assunto tratado for sacana, o palavrão sobra. Qualquer excesso é demasiado. É preciso não chocar, é importante ser necessário. Além do mais, o linguajar atual é cheio de palavrões. Fala-se na vida real, tanto palavrão que considero absurdo alguém reclamar de um palavrão dito no palco.. (.. ) .. " Procuro dizer os palavrões que PODEM ser ditos. Os mais cabeludos não digo.. (.. ) .. Procuro falar, no meu show, como se fala na vida e a vida é, ela mesma, um PALAVRÃO. "

" Decorei novamente um show antigo (sem palavrão nenhum) e o ensaiei, com a parte musical gravada. Foi como se o meu show tivesse duas partes: a primeira, o show antigo, e a segunda, o show atual. Na primeira parte (gravada para a TV), entrei em cena de smoking. Na segunda parte (apenas para a plateia), entrei de jeans, jaqueta, informal. "

" A Globo ajudou muito no show do Carnegie Hall. Foi ela quem pagou o cenário (todo espelhado) e as passagens. Meus técnicos não puderam ir. O consulado americano negou-lhes o Visa e resolvi o problema levando o Nizo, meu filho. Lug operou o gravador e Nizo (que conhecia de cor o espetáculo atual) ficou ao lado do técnico americano dando as ordens de go e stop para cada mudança de luz. Aquela organização exagerada dos americanos me irrita um pouco. Talvez seja o hábito da nossa esculhambação. O fato é que acho um pouco demais o excesso de "não pode" dos americanos. A firma de vídeoteipe que a Globo contratou para a gravação do show chegou à porta do Carnegie Hall às 7:45h e ficou esperando. O aluguel da casa começava às oito. Às oito em ponto a porta se abriu. Os técnicos da gravadora entregaram os fios aos homens do Carnegie Hall e eles os levaram, junto com o equipamento, para o teatro. Ninguém da gravadora podia entrar no teatro, com exceção dos cameramen. Ficaram todos dentro do caminhão, na rua, junto com o Zelito, o Eduardo Sidney e o Walter Lacet, que a Globo mandara para cortar. Só que o Lacet não podia tocar nas teclas do equipamento; isso teria que ser feito por um americano. Lacet, como o Nizo , ficou com seu serviço restrito ao one, two e three, dependendo da câmera que ele quisesse colocar no ar. "

" Apesar desta organização toda, a gravação ficou ótima, os dois espetáculos saíram maravilhosos e achei muito engraçado o câmera americano que morria de rir sem entender coisa alguma ".


Convite Especial veiculado no JORNAL DO BRASIL para um Espetáculo no Revéillon do ano 1982, no MATEUS HOTEL TROPICAL, com Chico Anysio Alegrando a VIRADA para 1983.

Matéria sobre o Show DIÁLOGOS no Jornal O GLOBO, em 1991.

Sobre os Espetáculos de Chico, de modo Geral, vale Relembrar Fatos e Passagens Interessantes :

A CENSURA acompanhou Chico Anysio por muitos anos. Foi Ela a Responsável por sua saída da Rádio Guanabara, lá atrás, no final da Década de 40. Como já visto, quando a Rádio Guanabara foi comprada pelo político Adhemar de Barros e a conotação da programação teve de ser mudada, iniciou-se uma crise interna, o que fez Chico ir parar na Rádio Mayrink Veiga em 1950.

Anos depois, já na Televisão, o chamado GOLPE DE 64 foi o responsável pela CRISE e QUEDA da TV-RIO. Em sua Autobiografia Chico relembrou um Fato MARCANTE e CURIOSO neste período :

" Eu tinha de estar na TV-RIO ás Dez da Manhã. Morava perto. Ia a pé pra Televisão. Quando dobrei a Av. Copacabana na direção da Francisco Otaviano, havia uma barricada. Soldados Armados, carros de combate. Eu não tinha ligado a Televisão na Véspera e não lera os Jornais ainda.

- Não pode passar - disse-me o Soldado.

- O que está havendo ?

- Revolução. O país está em Revolução.

Era 1 º de Abril, mas não era " Primeiro de Abril". O Clima em volta, até onde a vista alcançava, provava a verdade das palavras do Soldado. Eu quis saber mais. Eu quis tentar um Pouco.

- Eu só quero ir para TV-RIO. Eu trabalho lá.

- Mas não pode passar. Só se o Tenente der Licença.

- E o Exército está a Favor ou Contra o Presidente ?

- Não sei, Só Perguntando ali ao Tenente.

" O Tenente me levou até a Porta da TV-RIO e Eu entrei. Naquele 1° de Abril eu comecei a perceber a Deterioração da TV-RIO. Tudo acontecia ali, defronte a emissora, e o Jornalismo não gravava nada, não perguntava, não fuçava, Omitia-se, apenas. Eu e o Léo Batista vimos, da janela da TV, o então Cel. Montanha tomar Sozinho o Forte de Copacabana. Ele inventou um Nome :

- Você está Contra ou Favor de Fulano ?

- Como ? - Perguntou um Soldado.

- Me dá esse Fuzil.

E assim tomando os Fuzis e os Revólveres de todos e os jogando para um canto, sempre com a Pergunta :

- Você está Contra ou Favor de Fulano ?

" Nem Clint Eastwood seria Capaz daquela Façanha. O General Montanha pode bater no peito e dizer : ' Eu sou o UM do Forte ' porque ele tomou o Forte de Copacabana Sozinho com sua estratégia brasileira.

Nada foi gravado, nada foi filmado, nada foi documentado. A TV-RIO estava a caminho do Fim. Sentia-se isto nas deliberações, nas não-renovações de contratos importantes, nas diretrizes erradas que eram tomadas. Walter Clark brigava sozinho pela manutenção daquele quase império. Era uma casa pequena, mas de grande importância. A TV-RIO era o circo do país e a lona deste circo já apresentava emendas e - pior - muitos furos. Havia goteiras. Eu tinha sido comunista, depois simpatizante e em 64 eu era esquerdista. Humor é coisa que se faz na esquerda. Não existe humor ' de direita '. Os meus textos eram nacionalistas e isso, para ' os homens ', significava ser Comunistão. Eu fazia piadas contra os americanos, que vinham comer de graça no nosso quintal. Isso incomodava. Por isso meu Cunhado, que era Secretário de Saúde do Governador Carlos Lacerda, me telefonou :

- Chico, seu nome está na Lista. É melhor você ir pra casa da sua Mãe, para o Sítio.. dê um jeito de Sumir por uns tempos, porque SEU NOME ESTÁ NA LISTA.

" Agradeci, mas fiquei em casa. Se eles quisessem me encontrar, me encontravam, fosse para onde fosse. Era por volta de 20 de Abril. Eu morava num Apartamento cuja porta era de Vidro. Meus filhos, jogando futebol na sala, haviam quebrado o vidro, e o vidro novo, não era tão Fosco quanto o anterior. Dava para ver se quem estava lá fora era Homem, Mulher, Negro, Padre ou Menino. Eu estava com a minha mulher ( na época, Rose Rondelli ) vendo televisão quando a Campainha tocou. Eram TRÊS MILITARES. Felizmente a Sala era Comprida e deu para respirar fundo várias vezes na caminhada até a Porta. Abri. Ali estavam um SubOficial e Dois Soldados.

- É Aqui que Mora o Sr. Francisco Anysio ?

- Sim, senhor.

- Ele está.

- Sou Eu

- Podemos entrar ?

- Por Favor.

Sentaram- se e me preparei para ser Algemado. O SubOficial foi quem falou :

- Viemos convidá-lo para fazer um SHOW nas Agulhas Negras.

" Fiz Dois Shows. Um para os Soldados e outro para os Cadetes e Oficiais. Estavam Presentes : o General Garrastazu Médici - Comandante da Escola -, o General Costa e Silva - Ministro da Guerra-, e Marechal Castelo Branco - Presidente da Revolução. Disse as mesmas Piadas de sempre, para que não pensassem que o que Eu falava era outra coisa que não NACIONALISMO. Meu Humor de ESQUERDA os divertiu tanto que imagino ter Dissipado ali qualquer Dúvida a respeito da minha CORAGEM. Num manifesto dos Intelectuais que Eu assinei, o Jornal O GLOBO colocou meu Nome em PRIMEIRO LUGAR e isto mais me Implicava. Não liguei para Aquilo. Minha Consciência era o bastante. Eu costumava me definir assim :

- Sou como JESUS : SOCIALISTA CRISTÃO.

Hoje ( 1992 ) vejo que isto é Pretensioso, mas não me envergonho de ser um Homem de Esquerda nem penso que isto seja Perigoso. Sou de Esquerda e sempre me dei bem assim. Inclusive no Futebol, eu jogava com a Camisa número 10. Meia-esquerda. Hoje a Esquerda está acabando, por seu Radicalismo, como o Comunismo acabou, por seu Sectarismo. Meu Nacionalismo, no entanto, continua Intacto. Eu acredito neste País e acho que Meus Netos terão orgulho de ser Brasileiros. "

AÍ..QUINTO, lançado em 1977, foi altamente Criticado pela MÍDIA. Como já mencionado, em Julho daquele ano foi acusado de " FALSA LIBERDADE " pela revista VEJA.

Ainda na Revista VEJA, em 1981, Os Espetáculos de Sérgio Rabello e de Chico Anysio foram FOCO na Edição do Mês de Junho. Em Cartaz no GOLDEN ROOM do Copacabana Palace, o Excesso de PALAVRÕES no Show de Chico surpreendeu o Público.


E já que que o Assunto é Excesso de PALAVRÕES, o LP CHICO É DO CASSETE, de 1987, lançado pela BARCLAY, com Produção e Textos de Arnaud Rodrigues, trazia vários Personagens. Um dos Discos mais Surpreendentes de Chico, que divide Opiniões por causa do conteúdo totalmente SEM CENSURA e recheado de PALAVRÕES. Há quem considere Divertidíssimo. Outros, PESADO DEMAIS e longe de toda a Criatividade e Brilhantismo do Mestre.


Naquele mesmo ano, a Repórter Norma Couri, que fez uma Entrevista HISTÓRICA com Chico publicada na Edição 148 da extinta Versão brasileira da Revista Masculina PLAYBOY, da editora Abril, durante a Correria e Insistência em conseguir Conversar com Ele, foi Assisti-lo e se Surpreendeu com a QUANTIDADE DE PALAVRÕES, mas Reconheceu o Sucesso :

" Quando a plateia de 800 lugares repletos do BAURU TÊNIS CLUBE aplaudiu Chico de pé, apesar dos 109 Palavrões que recheiam sua hora de show, lembrei-me das palavras de Jô Soares : ' Chico é a pessoa mais generosa que conheço '. E do irmão Zelito : Com seu primeiro salário, aos 16 anos, Chico comprou minha primeira bicicleta, e não posso esquecer que ele Apanhava em meu lugar quando eu quebrava os vasos lá de casa. "

" Tenho a impressão de que foi por generosidade - solidário com a minha aventura aérea em pleno Dia da Pátria - que Chico Anysio resolveu conceder a parte final da entrevista mais Genial dos últimos Meses. "

Na própria entrevista, o Assunto veio á tona :

- O seu Show dá certo mesmo na Crise, ou você o adaptou ?

CHICO - O que antes era VIVA A NOVA REPÚBLICA vira ABAIXO A NOVA REPÚBLICA? ( Risos ) Não. Desde 1956 os temas continuam iguais- desemprego, inflação, custo de vida- e sempre achei que crise é bom para a criação. País feliz não tem humorista : eu não conheço um humorista suíço ou dinamarquês.

Eu me refiro aos Palavrões : você aumentou a voltagem para atrair mais público ?

CHICO - Faz parte da Vida. : tem horas em que um só palavrão resolve.

- Alguns colegas seus são contra - por exemplo, o Millôr Fernandes. Isso o incomoda ?

CHICO - Mas quem vai ao meu Show não é o Millôr, é o alfaiate do Millôr. ( Risos ) Depois, há Palavrões e Palavrões. E depende de quem Diz e da forma como Diz. Se é o velhinho POPÓ ( Imita ) - " estou com a Bunda toda molhada " - , então pode. O Palavrão é uma atitude. Feio não é o Cocô, feio é Fome, Desemprego. Depois, o Palavrão é a garantia de que estou dando ao público aquilo que ele não vai ver na televisão. O Palavrão é o Toque debaixo do braço, porque o Riso provocado por ele é quase um Grito, uma Explosão.

- As senhoras Pudicas se levantam ?

CHICO - Ás vezes sim, mas saem duas e ficam 892. A minha Mãe vê meus Shows e gosta muito. Porque faço tudo com naturalidade. Estou no Teatro há 40 anos, e nada me surpreende.

CENSURA também foi uma das Pautas da Conversa :

- Essa frieza profissional é comum entre redatores de humor ?

CHICO - Tinha um craque, o Marcus César ( Morreu de infarto há dois meses ). O Filho de 17 anos ficou um ano de leucemia antes de morrer, e o pior é que o que Marcus conseguiu fazer era 80 por cento Bom. Se viesse ruim, eu perdoava.

- Se todo editor perdoar os textos ruins, sai um péssimo jornal. Não acontece o mesmo com o Humor ?

CHICO - Mas as pessoas vão ler os jornais em suas casas, e eu sempre posso defender o texto com uma acentuação aqui, outra lá. Por isso, durante a Censura da Ditadura, ia pessoalmente a Brasília encenar para os Censores.

- Você driblou muitos ?

CHICO - Não estava ali para enganá-los, só queria que Eles não se enganassem. O que está escrito pode ser lido de uma porção de maneiras. Se o censor for um homem traído pela mulher, vai se chocar ao ler uma piada sobre Traição. Mas não se ela for dita de maneira especial. Salvei 70 por cento dos meus textos assim.

- Você conseguiu fazer Graça para os censores ?

CHICO - Era Horrível. Das piores situações da minha vida. Imagine um auditório onde toda a plateia é composta de censores. Eu no palco fazendo piada e ele não rindo em hora Nenhuma.

- Foi a situação mais Penosa que você já viveu no Palco ?

CHICO - Mais penoso do que encenar para muitos censores é encenar, num teatro de 400 lugares, para um censor Só. Que não ri. Riso, para humorista, é fundamental. É quando respiro. E Riso é Contagiante : um começa a rir e o outro já está rindo. Com a casa vazia, dá até vergonha de rir.

- Representar a SALOMÉ para o Presidente Figueiredo, numa festa em Brasília, foi pior ou melhor do que representar para a Censura ?

CHICO - Para os censores eu estava em julgamento. No caso do Presidente Figueiredo, ele estava sendo homenageado.

- Você aproveitou o momento para mandar algum recado ?

CHICO - Não fui lá para gozá-los. É piada, é o reconhecimento de uma situação pública que, minimizando o drama, não deixa de ser uma homenagem.

- Em seu Show, as piadas fortes sobre o ex-ministro Delfim Netto são uma homenagem ?

CHICO - ( Sério ) As Piadas acabam até defendendo o Delfim.

- É também uma homenagem a Sarney, Ulysses e ao Brasil quando você conta a Piada da Mãe de Trigêmeos batizados com esses nomes : o Sarney vive mamando, o Ulysses dormindo e o Brasil todo Borrado ?

CHICO - ( Seríssimo ) É. Fiz Piada até com o Funaro, que é honesto e foi traído pela necessidade de ganhar as eleições. Como faço com o Bresser Pereira, porque é inevitável. Com o Presidente Geisel nunca fiz, não, porque não podia. Mas com o Figueiredo fiz tantas.. E nos cruzamos cordialmente quase todos os dias, porque somos vizinhos.


Em 1993 Chico Anysio queria se APOSENTAR dos PALCOS. Cansado de se desdobrar entre Shows em TEATRO e TELEVISÃO e mais outros tantos Compromissos profissionais, tomou uma Decisão : Se Apresentar pela ÚLTIMA VEZ em CADA ESTA ESTADO BRASILEIRO. Logicamente, que a Excursão, apesar de ter Acontecido, não conseguiu levar adiante a Ideia e o impedir de continuar trabalhando no PALCO.

Em 1997, Chico Anysio realizou um Show Especial de REAL DESPEDIDA do Brasil. Quatro meses após o acidente que fraturou sua mandíbula, decidiu se mudar para o Exterior com Zélia Cardoso ( sua Esposa na época ) e os filhos do Casal. A Repórter Angélica Basthi, da extinta Revista AMIGA -TV TUDO, acompanhou a Apresentação de Chico Anysio no TEATRO CARLOS GOMES, em Show beneficente para o LAR FREI LUÍS e apurou os Desabafos de Chico : " Não podem me chamar de Burro. Se não respeitam meu trabalho, respeitem pelo menos minha Idade.. (.. ) " ..Acho que descontam em mim a raiva que sentem da Zélia ( Cardoso de Mello, sua então Esposa na época ). Não tenho nada a ver com o que Ela fez.. (.. ) " ..Não estou abandonando o meu país.. (.. ) " ..Já fui a seis médicos, e um deles me disse que em no máximo dois anos, estarei Bom. " Chico Anysio, em várias Entrevistas, dizia que sua Mudança de País era por causa dos Filhos ( Rodrigo e Victoria, frutos do Casamento com Zélia ), a Oportunidade de terem uma Criação Diferenciada e Estilo de Vida Melhor. Mas também desabafava o Descontentamento com a Mídia e o Público. O Espetáculo O DIREITO DE RIR E RIR marcou a Despedida do Mestre nos Palcos e do Brasil, quando resolveu se mudar com a família para NY. Chico AFIRMAVA em vários veículos de Imprensa que aquele ERA SUA DESPEDIDA TOTAL dos PALCOS, PARA SEMPRE.

Em 1998, ainda tentando Emplacar a Carreira de ROTEIRISTA no Exterior, Chico passou a se dividir entre E.U.A e Brasil. A TV GLOBO, nessa época, já não era mais administrada por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Marluce Dias da Silva havia assumido o Cargo de Direção Geral de Programação da emissora. Sem Espaço ( e sem a Liberdade de antes ) para trabalhar, muito se negociou até sua Volta efetiva á grade da TV GLOBO.

OLHA EU AQUI OUTRA VEZ marcou seu retorno ao Brasil em 1998 e a estreia do Show marcou a REINAUGURAÇÃO do TEATRO DA LAGOA.

Daí por diante, todos os outros Shows já Mencionados neste Capítulo.


Kerley Fernandes Salguero, ( fã, admiradora e idealizadora de conteúdo para projetos virtuais ) ( Instagram >> @MEMORIALCHICOANYSIO )